EDITORIAL | EDUCAÇÃO | SAÚDE | PREVIDÊNCIA | ORÇAMENTO 

:: Home
:: Faça sua pergunta
:: Indique um tema
:: Sua opinião
:: E-mail
 

Orçamentos engessados, quem não os tem ? Há que se conformar com tal situação ou existe alguma atitude que contribua para reduzir essa limitação que, via de regra, contribui para a não realização de políticas públicas do interesse e necessidade da sociedade ? Leia e tire suas próprias conclusões.


ORÇAMENTO E GESTÃO

Sérgio Paulo Vieira Villaçai

Hoje, um dos aspectos marcantes da administração municipal é o fenômeno da rigidez orçamentária, o que provoca grandes dificuldades para que os governantes cumpram seus programas, a maioria deles derivados de suas campanhas eleitorais, frustrando, portanto, demandas de seus eleitores.

Essa rigidez decorre de pressões exercidas sobre o orçamento e que tem sua origem em fatores que, não excludentes, se combinam e compõem um quadro complexo. Os mais importantes são:

  • os compromissos acumulados no passado e os que serão assumidos obrigatoriamente, com destaque para a questão previdenciária;

  • as regras de transferências de competências e recursos entre os entes da federação, onde se observa estarem os municípios assumindo responsabilidades de outros entes sem a correspondente compensação de recursos;

  • as regras rígidas de gasto público que constam da Lei de Responsabilidade Fiscal;

  • as determinações constitucionais e legais que, através da vinculação de receitas, visam garantir o financiamento de determinados programas governamentais, notadamente saúde e educação; e

  • as limitações constitucionais dos municípios criarem novas fontes de recursos de natureza tributária.

A respeito dessa rigidez observam Rezende e Cunha (2005):ii

Num ambiente em que o espaço para a livre utilização dos recursos orçamentários vai-se estreitando, as demandas por garantias vão-se acumulando, fazendo com que a rigidez orçamentária cresça, engessando a política orçamentária e criando novas e maiores dificuldades para a acomodação de outros interesses.

Fazer frente à rigidez orçamentária não é tarefa simples mas, para realizá-la, é condição necessária o aprimoramento da gestão orçamentária.

A base para o aprimoramento da gestão orçamentária: pensar e agir estrategicamente

Essa melhoria começa pelo desenvolvimento da capacidade da administração municipal de pensar e agir estrategicamente em sintonia com os propósitos estabelecidos pelo governo. Isso requer que o planejamento seja pensado como um processo de construção do futuro que tem um lado técnico e outro político. Garante-se assim que do planejamento não resulte apenas um produto tecnocrático de uma elite de técnicos ou área de governo, mas que nele o líder político e executivo principal, na qualidade de empreendedor, seja propositor e negociador do norte que oriente toda a mobilização da estrutura governamental. A criação desse objetivo mobilizador, que permitirá fixar de forma mais orientada os gastos a serem autorizados no orçamento, deve ser o princípio do planejamento - o restante do planejamento é como chegar lá.

O desenrolar do processo de planejamento irá exigir uma pluralidade de enfoques e o uso de diversas metodologias. Deve ser aqui adotado o pressuposto de que o Estado é o elemento articulador e promotor do desenvolvimento, mas também considerar o papel relevante da sociedade e dos agentes públicos, principalmente das populações beneficiárias das ações a serem desenvolvidas, das organizações do terceiro setor e mesmo de entidades com fins lucrativos que possam contribuir para a realizaçãodas políticas públicas. Com isso, a gestão orçamentária passa a incorporar uma prática de responsabilidade e solidariedade de todos os atores envolvidos.

Os planos devem ser elaborados de tal forma que sejam ajustáveis à dinâmica imposta pela realidade e não se tornem uma camisa de força que irá provocar um distanciamento dessa realidade. Para tanto, os programas devem ser bem determinados, com a descrição clara dos efeitos desejados sobre o ambiente, aqui detalhadas todas as dimensões da realidade que pretendem alterar: econômica, social, ambiental e outras. Só então deve ser especificado como realizá-los, o que deve ser feito de forma flexível, sem vieses determinantes, devendo haver, nesse momento, a preocupação não só de especificar como serão implantados, mas também como serão continuamente avaliados.

É essencial que os planos sejam participativos e busquem ativar as capacidades dos atores envolvidos tanto na sua formulação quanto na sua implementação. Com todos esse cuidados, aproxima-se o planejamento estratégico da execução (ver BOLETIM CEBI nº 17) e garante-se a possibilidade de ajustá-lo à dinâmica que resulta das constantes e rápidas mudanças impostas pelos ciclos econômicos.

Esse conjunto de cuidados indica que, mais do que elaborar rebuscados planos estratégicos, as organizações públicas precisam desenvolver a sua capacidade de pensar estrategicamente para aproveitar as oportunidades. Nesta perspectiva, a estratégia deixa de ser uma restrição, seguir burocraticamente o rito determinado pelo planejamento, visto como um roteiro a ser seguido religiosamente, uma camisa de força, e passa a funcionar como um instrumento do alinhamento entre pessoas, processos e arquiteturas organizacionais para a construção do futuro desejado.

Essa outra forma de encarar o planejamento - o pensamento estratégico -, está baseada no pressuposto de que, além de deliberadas, as estratégias emergem do contexto situacional. Segundo Mintzberg (1994)iii :

...não existe tal coisa como uma estratégia puramente deliberada ou uma estratégia puramente emergente. Nenhuma organização - nem mesmo aquelas comandadas por aqueles antigos generais gregos - tem conhecimento e experiência anterior suficiente para ignorar o aprendizado do percurso. E ninguém - nem mesmo o oleiro solitário - pode ser flexível o suficiente para deixar tudo acontecer aleatoriamente, parar todos os controles. O artesanato requer controle da mesma forma que requer responsabilidade para com o material em mãos. Por isso estratégias emergentes e deliberadas formam os extremos de um continuum no qual as estratégias que são geradas artesanalmente no mundo real podem ser encontradas. Algumas estratégias podem aproximar-se de ambos os extremos, mas a maioria cai em pontos intermediários.

O planejamento estratégico da maioria dos municípios foi parcialmente concluído com a elaboração do Plano Plurianual (PPA). Entretanto, o conceito de estratégia emergente abre a porta para o aprendizado estratégico, ao reconhecer a capacidade da organização para experimentar, e cria um ambiente favorável ao desenvolvimento da intuição e criatividade. Assim, mesmo que o PPA não tenha seguido os princípios acima arrolados, é possível determinar a partir dele os propósitos estratégicos do governo.

O primeiro passo para o aprimoramento da gestão orçamentária: fixar prioridades antes de alocar recursos

Esse é o primeiro ponto a ser observado na busca de mudanças qualitativas na formulação e na gestão do orçamento municipal - a submissão das decisões orçamentárias a diretrizes estratégicas estabelecidas mediante um amplo debate público envolvendo as lideranças expressivas da sociedade e inscritas no plano plurianual de governo. Dito de outra forma: definir as prioridades orçamentárias dentro de uma ótica mais estratégica, que tem como base as projeções plurianuais das políticas públicas e em um processo participativo que envolva a sociedade e os agentes públicos.

A fixação de prioridades antes da alocação de recursos, num processo de ampla participação, irá contribuir para reduzir substancialmente o tempo gasto com questões secundárias quando da discussão e aprovação do orçamento pelo Poder Legislativo, para evitar a disputa pelos escassos recursos de livre utilização disponíveis no orçamento e para o aumento do grau de cooperação entre os agentes públicos, condição fundamental para o sucesso da implementação das políticas públicas.

O segundo passo: rever a lógica da elaboração e implementação do orçamento

A partir desse ponto, a melhoria da gestão orçamentária estará diretamente relacionada com a capacidade técnica de elaborar e implementar orçamentos. Só recentemente é que se passou a dar maior relevo à elaboração do orçamento. Até então, foi amplamente usada a lógica do incrementalismo, onde o orçamento de um ano é sempre elaborado com base no do ano anterior, feitas apenas pequenas correções em função de variações nas disponibilidades de recursos. Essa prática, baseada na reconciliação com o passado, e que decorre da tendência de apegar-se ao conhecido e experimentado, não mais serve para um ambiente em que as mudanças ocorrem em grande velocidade.

Há que criar capacidade para a elaboração de orçamentos dentro da nova lógica planejamento - execução. Na busca dessa capacidade, algumas regras básicas devem ser observadas, com destaque para as comentadas abaixo.

Implantar o pensamento estratégico

Avançar a visão do pensamento estratégico para as áreas funcionais da organização, valorizando a iniciativa, proação e a análise racional. Essa transformação não se realiza pela simples introdução novas técnicas, mas por uma mudança significativa na prática gerencial. Trata-se de uma mudança comportamental nem sempre simples na administração pública pois implica em pensar sistematicamente no futuro, futuro que fica muitas vezes circunscrito a um mandato político, tempo nem sempre suficiente para garantir o resultado de políticas públicas do interesse da sociedade.

Aprimorar o sistema de determinação de custos.

Um maior investimento na melhoria da capacidade de calcular custos fará com que as decisões de alocação de recursos se tornem menos arbitrárias, o que ocorre com freqüência na elaboração dos orçamentos anuais.

A determinação dos custos das ações desenvolvidas pelo governo exigirá adaptações na prática contábil já que uma escrituração preponderantemente fiscal não permitirá realizar tais cálculos com sucesso. Isso resulta do fato da técnica orçamentária por programas não atender aos requisitos da contabilidade de custos, uma vez que um programa, independentemente da sua natureza, gera vários produtos e é, na maioria das vezes, executado por mais de um órgão. Como o objetivo da contabilidade de custos é a determinação de custos por produto, ela exige dados detalhados sobre os custos e produção das unidades que, direta ou indiretamente, estão envolvidas na execução desses programas - as áreas de responsabilidades. Vale destacar que para a geração dos diversos produtos existem as áreas de responsabilidade que efetivamente os produzem, chamados de centros de custo de produção, e as que se encarregam de fornecer insumos para a sua produção, e que são os centros de custos de apoio. A Secretaria de Educação é, por exemplo, um centro de custo de produção, enquanto que a Secretaria de Administração, que adquire materiais para as unidades escolares, a Secretaria de Obras, que constrói e faz a manutenção das unidades escolares e a Secretaria de Finanças, que libera recursos financeiros necessários ao ensino, são fornecedores de insumos à Secretaria de Educação para gerar os produtos necessários ao cumprimento da política educacional proposta pela entidade.

Feitos os registros adequados por centro de responsabilidade, os custos podem ser determinados aplicando-se, com alguns ajustes, as mesmas técnicas de cálculo aplicadas à área de serviços.

Implementar procedimentos de reavaliação.

Outro fator que irá contribuir para melhorar a qualidade da gestão orçamentária é a adoção de procedimentos de reavaliação periódica dos programas, criando dessa forma possibilidades reais de remanejamento de recursos. Para facilitar a avaliação de programas e o eventual remanejamento de recursos é importante estabelecer distinção entre os programas, separando aqueles que representam ações básicas, e portanto não sujeitas a regras de contingenciamento, daqueles que relacionados com a expansão ou criação de novas ações. Vale lembrar que a avaliação periódica de resultados será insumo para realização de mudanças no orçamento corrente e até reformulações no planejamento de médio e longo prazo da entidade pública.

Uma medida de desempenho que auxilia a geração de conhecimento sobre a execução orçamentária e, portanto, útil para a reavaliação dos programas é dos resultados econômicos . Essa medida, prevista no art. 85 da Lei 4320/64, que pode ser total ou parcial de uma entidade pública, ou mesmo de uma ação específica por ela desenvolvida, serve para tomar decisões em relação à prestação de determinados serviços públicos e que se refletem no orçamento - por exemplo, a manutenção da sua realização, em maior ou menor escala, ou a sua terceirização;

Garantir o fácil entendimento da peça orçamentária

Por último, a melhoria da gestão orçamentária passa também pela compreensão, pela sociedade, dos propósitos das ações do governo. Trata-se aqui da transparência do orçamento. Os cidadãos passam a ver com clareza como serão gastos os recursos que lhes são compulsoriamente extraídos através dos tributos. È o marco inicial do processo de controle social sobre a ação do Estado, hoje um instrumento fundamental para o aperfeiçoamento da democracia.

Na busca da transparência dois aspectos são fundamentais: o primeiro é a utilização de uma linguagem orçamentária que favoreça não só o entendimento dos objetivos e dos resultados das várias ações que compõem o orçamento anual, como também o relacionamento dessas ações com os objetivos mais amplos das políticas públicas, dentro de uma perspectiva de mais longo prazo; o segundo aspecto é identificar os veículos mais adequados para divulgação de tais informações, o que pode incluir desde publicações oficiais periódicas ou mesmo sua divulgação através dos portais dos municípios na internet.

Concluindo

O desenvolvimento dos novos conceitos orçamentários é fundamental para redirecionar as organizações públicas no sentido de alcançar resultados consoantes as necessidades e aspirações da sociedade. Há, entretanto, que estar atento ao fato de que a implementação desses conceitos exige mudanças comportamentais e culturais, nem sempre fáceis de serem realizadas na área pública, pouco propensa à grandes transformações. Há, portanto, que ter cautela na formulação de uma nova política de gestão orçamentária, enfatizando-se a experimentação em relação à implementação. Isso significa que a estratégia da mudança deve começar pela experimentação dos novos conceitos em áreas delimitadas da organização, como projetos pilotos, e só mais tarde estendê-los aos demais componentes da organização.

 


i Assessor do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro e redator do Boletim CEBI.
ii REZENDE, F.;CUNHA, A. (Cords.) Disciplina Fiscal e Gasto Público. Rio de Janeiro:FGV, 2005
iii MINTZBERG, H. The rise and fall of strategic planning. Prentice-Hall, 1994
iv Para maiores detalhes ver SLOMSKI,V. Mensuração do Resultado Econômico nas Entidades Públicas. Chapecó: Argus, 2001.

 


 

fone : 11 2196-8800

CEBI INFORMÁTICA - 55 (11) 2196-8800 -  © Copyright 2006 - Cebi TI - Todos os direitos reservados